O rapaz e a bicicleta
«Havia um rapaz que (…) deu-se mal co(1) casamento! (…) Naquele tempo, os homens eram muito exigentes! (…) Na’(2) queriam que as mulheres casassem sem os *três vinténs* (3)!
E atão(4) ele (…) chegou, ele fez umas quadras, fez-lhe uns versos.
Disse assim: (…)
No dia do me’(5) casamento
foi um grande entretimento. ? Lá em casa dos pais dela.
Se eu me tornar a casar
hei-de de me acuatelar(6),
caí aquela esparrela(7)!
O me’ sogro era o Cleta,
tinha uma bicicleta,
mas com grande engrenagem.
Antes de anoitecer,
*pens’i entã’*(8) em correr
e fui fazer uma viagem!
Peguei na bicicleta,
pensei cortar a meta.
Com força pedalei,
pensava que ia a seguro!
Encontrei um grande furo
e de repente parei!
Voltei para trás então!
Com a bicicleta à mão.
Ó/ com(?) *o pai*(?) a fui entregar.
“Guarde-a bem guardada,
que ela estava furada,
rompeu a cambra(9) de ar.”
O me’ sogro exclamou:
- Foi você quem a furou,
com essa grande loucura!
Na’ desande rapazinho!
Deitas-lhe um remendinho,
tudo na vida tem cura!
- Eu na’ ‘tou moi(?) sem cargo
o buraco é muito largo,
na’ me meto a tal serviço!
É verdade que eu nela andei,
ma’(10) não fui eu quem a furei
e nem tenho nada com isso!
E desisti da corrida
que enquanto eu ‘tiver vida,
juro-*le*(11) por minha fé:
poderei correr à farta,
mas primeiro a carta,
ou se na’ vou a pé!
Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010
Glossário:
(1) Co – com o (contração da conjunção arcaica ca com o artigo ou pronome o ? ca+o ?; uso coloquial).
(2) Na’ – não (houve supressão da acentuação e do o para reproduzir pronúncia popular, uso coloquial).
(3) Os três vinténs – virgindade, hímen intacto da mulher (hipótese dado o contexto).
(4) Atão – então, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial.
(5) Me’ – meu (supressão da vogal u para reprodução da pronúncia, uso informal e coloquial).
(6) Acuatelar – «acautelar.» Pires, A. Tomás. (1903-1905). Vocabulário Alentejano. Revista Lusitana, Volume VIII, Lisboa: Antiga Casa Bertrand, p. 94.
(7) Esparrela – cilada, plano para enganar, logro.
(8) Pens’i entã’ – Pensei então (houve supressão do e em pensei e do o em então para manter a pronúncia).
(9) Cambra – câmara.
(10) Ma’ – mas (supressão do s para reprodução de pronúncia, uso coloquial).
(11) Le – lhe (pronome, registo popular e modo informal).
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
Barreiros, Fernando Braga. (1917). Vocabulário barrosão. Revista Lusitana, Volume XX, Lisboa: Livraria Clássica Editora, Lisboa. p. 141.
Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares doAlentejo. Porto: Campo das Letras p.38.
Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.
Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.
Júnior, J. A Pombinho. (1939). Retalhos de um vocabulário — (Subsídios para o léxico português): Vocábulos, Modos de dizer, Particularidades gramaticais, Vocabulário, Aditamentos. Revista Lusitana. Volume XXXVII. Lisboa: Livraria Clássica Editora. p.172.
Júnior, J. A. Pombinho.(1938). Vocabulário Alentejano — (Subsídios para o léxico português) — (continuação do vol. XXXV, págs. 155-160). Volume XXXVI. Lisboa: Livraria Clássica Editora. p.208.
Nunes, J. Joaquim. (1895).Fonética histórica portuguesa. Revista Lusitana. Volume III. Livraria Portuense. p.304.
Pires, A. Tomás. (1903-1905). Vocabulário Alentejano. Revista Lusitana, Volume VIII, Lisboa: Antiga Casa Bertrand, p. 94.
Santos, Felício dos.(1897-1899). Linguagem popular de Trancoso. Revista Lusitana. Volume V. Lisboa: Antiga Casa Bertrand, p.171.
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