[As três filhas]
«Havia uma mãe… Também que era môral(1). Os môrais tinham boas coisas. (…) Era um casal – viviam num monte(2) e a mãe tinha três filhas. Aquela (…) senhora tinha três filhas. (…) Mas as moças na’(3) apareciam à rua… (…)
*Mas e(?) assim*(?):
- Mas eu parece que ela tem três filhas e ná’(3) aparecem à rua?! - Vi a velha lá lavando num poço, disse assim:
- Eu vou-le(4) bater à porta!
Bateu. Vê uma! (…) Bateu à porta e ele disse-lhe assim:
- Olhe menina, fazia favor, dava-me uma gotinha de água?
Ela nunca le disse nada! Voltou pa’(5) dentro foi buscar. Foi buscar uma pucarinha(6) (…) em barro (…) e deu-le a água. Ma’(7) na’ lhe disse nada!
Que é que ele faz? Deixou cair a pucarinha! [Risos]. Quando ela vai, diz assim:
- Ai! Patiu-se a putarinha!
Responde a outra:
-Patissa na’ atissa, a nossa mãe na’ disse que na’ falassi(8)?
Responde a outa:
- Eu ‘tou cá atás(9) da pota(10), a pota, afiando a roca, a roca, sem dizer nada a ninguém! [Risos].»
Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010
Glossário:
(1) Môral – moiral («contracção de maioral «principal pastor do gado. No ms. 1º. acha-se escrito moural. Num doc. do sec. XIII, publicado pelo snr. Gabriel Pereira nos seus Doc. da cidade de Evora, lê-se mayoral de gaados (pag.28).» Vasconcelos, J. Leite de. (1890-1892). Dialectos alentejanos. Revista Lusitana. Volume II, Livraria Portuense, pp.22-23).
(2) Monte – regionalismo do Alentejo - «Cada herdade, com raríssimas excepções, contém uma casa ou edifício denominado monte - talvez por ser construído sempre no alto duma colina ou ondulação do terreno, - no qual, além da parte destinada à habitação do proprietário e do seu feitor, ou guardas, existem os celeiros, as arrecadações da ucharia ou dos aparelhos agrícolas, as cavalariças, o forno, a abegoaria, etc. Em algumas herdades há, ainda, outras casas, alugadas aos jornaleiros ou criados da lavoura, designados então por caseiros, - termo de sentido bem diverso do que lhe compete ao norte do Tejo, onde significa feitor.» Gonçalves:1921: 128-129).
(3) Na’/ná’ – não.
(4) -Le – ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).
(5) Pa’ – “para” (em próclise, usadode modo informal e coloquial).
(6) Pucarinha – «vasos para beber água ou para a tirar do pote; têem uma só asa, (…) e sempre de barro,» Viana, (1888-1889: 216).
(7) Ma’ – mas.
(8) Falassi – falasse.
(9) Atás – atrás.
(10) Pota – Porta.
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares doAlentejo. Porto: Campo das Letras. p.128.
Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254
Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.
Chaves, Luís. (1916).Folclore de S.ta Vitória do Ameixial. Volume XIX. Lisboa: Livraria Clássica Editora, p.320.
Gonçalves, Luís da Cunha. (1921). A vida Rural do Alentejo. Breve estudo léxico-etnográfico. II - O regime da propriedade rural. A terra e a habitação. O lar e a alimentação. Sistema usual de explorar a terra. Os salariados e os salários. Horário do trabalho rural (pp.128-136). Academia das Sciencias de Lisboa. (1926). Boletim da Classe de Letras (Antigo Boletim da Segunda Classe). Actas e Pareceres Estudos, Documentos e Notícias. Volume XV. 1920-1921. Coimbra: Imprensa da Universidade (p.128-129).
Nunes, José Joaquim. (1902). Dialectos Algarvios (Lingoagem do várlavento)(Conclusão). Revista Lusitana: Arquivo de Estudos Filológicos e Etnológicos Relativos a Portugal, (1ª Série), Volume VII, Lisboa: Antiga Casa Bertrand. pp. 250.
Pires, A. Tomás. (1907). Vocabulário alentejano. Revista Lusitana. Volume X, Lisboa: Imprensa Nacional, p.96.
Vasconcelos, J. Leite de. (1890-1892). Dialectos alentejanos. Revista Lusitana. Volume II, Livraria Portuense, pp.22-23).
Viana, Gonçalves. (1888-1889). Matrizes para o estudo dos dialectos portugueses. Revista Lusitana. Volume I. Livraria Portuense, p. 216.
http://www.infopedia.pt; http://www.mirandadodouro.com/dicionario.