[Quinta-Feira de Endoenças]
«Um dia qualquer mais (…) no tempo da (…) Páscoa(1)! Pois! (…) E cantávamos também… (…) esta oração.
-*Quinta-feira de Endoenças*(2)…
Sua santa homenidade(3)
Corredês(4) toda a cidade
com uma tã’ pesada cruz!
No camilo(5) falta a luz. (…)
E o céu se escurecia
e o filho deste morria,
morria pa’(6) nos salvar.
- Ai, Jesus(7)!
- Se na’(8) há tal…
- Sobe além aquele oiteiro(9).
Verás uma rua regada
do se’(10) sangue verdadeiro.
O preso vai à coluna
e o preso vai ao cordilo(?).
E a Virgem vai a cabelo
pela rua da amargura.
- Eu oitocentos brados dava
e oitocentos brados daria!
Sem haver homem nem mulher,
com se’s brados le(11) acudia.
Acudiu-le Badanel e Badanela Maria.
- De’s(12) te salve! Hortelão, na’ vistes aqui passar,
bom Jesus de Nazaré?
- Por aqui passou senhora
e antes do galo cantar!
Levava uma cruz às costas
que o fazia ajoelhar.
Uma corda ao pescoço
pra mais tormentos lhe dar.
E esse é que é me’(13) bom Jesus
que morreu pa’ nos salvar.»
Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010
Glossário:
(1) Páscoa – « RELIGIÃO festa anual dos Cristãos para comemorar a ressurreição de Jesus Cristo.» http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa-ao/Páscoa
(2) Quinta-feira de Endoenças – Quinta-Feira Santa; Quinta-Feira da Paixão de Cristo (as endoenças são solenidades e rituais católicos que se fazem neste dia).
(3) Homenidade – humanidade (hipótese).
(4) Corredês – corrais ou correrdes (hipótese – conjugação do verbo correr no conjuntivo).
(5) Camilo – caminho (hipótese).
(6) Pa’ – “para” (em próclise, usadode modo informal e coloquial).
(7) Jesus – nas religiões cristãs, filho divinizado de Deus, crucificado para salvar a humanidade.
(8) Na’ – não (pronuncia popular, uso coloquial).
(9) Oiteiro ? outeiro (pequeno monte; colina).
(10) Se’ – seu.
(11) Le – ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).
(12) De’s – Deus (supressão da vogal u para reproduzir a pronúncia popular).
(13) Me’ – meu (supressão da vogal u para reproduzir a pronúncia popular).