Deolinda e o patrão
Mas escute, mas havia, com’à(1) Dona Ilda já disse que o pai dela, o me’(2) pai, esta gente não(?) deixavam ir a gente servir(3)! Chamavam servir: era criadas e assim-assado(4) e os… Coisos…
E atão(5) havia um, um patrão e tinha uma criada. (…) Vou-le(6) contar isto (…) e ela chamava-se Deolinda. E ele, muito engraçado, (…) disse assim:
- Se tu soubesses, Deolinda,
a dor qu’ o(7) meu peito sente.
Entro em casa não te vejo,
logo não fico contente!
Eu ouvindo a tua fala
mudo logo, de repente!
A graça do me’ patrão!
Dá-me vontade de rir!
Na’(8) meter com chalaças(9)
que a patroa pode ouvir!
A patroa ‘tá(10) deitada,
na’ ouve o que a gente diz!
Dá-me um beijo, ó Deolinda!
Comigo na’ perdes nada,
dou-te prendas de valor,
deixarás de ser criada.
Be’jar(11) um homem casado!
Pouco ou nada me aprove’ta(12).
A patroa é minha amiga
eu na’ le faço essa desfe’ta(13)!
Dá-me um beijo, ó Deolinda!
Comigo serás feliz.
No dia dos me’s anos
irás comigo(14) a Paris!
Pra(15) fazer essa viagem
p’ecisa(16) muito dinheiro.
Eu só tenho três em prata
fechados num meálhe’ro(17)!
É *esses três*(18), ó Deolinda,
que tu tens em teu poder,
qual será o dia(?)
em que tu mos deixarás ver?
A patroa também tem:
um meálhe’ro já ósado(19)!
Há uns dias que lo(20) vi,
está um pouco descangalhado(21).
Com o peso do dinheiro
que o patrão lhe tem deitado(?)!
Toma lá estes três contos(22)!
Compra o que te apetecer,
se esse na’ te chegar
tem dinheiro a valer.
O patrão da minha terra!
Eu dele na’ tive medo!
Os três contos já cá vêm(?)
e agora chucha no dedo(23)!
[Risos].
Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010
Glossário:
(1) Com’à – como a (houve supressão da vogal o e acentuação do a para reproduzir a pronúncia).
(2) Me’ – meu (houve supressão da vogal u para reproduzir a pronúncia).
(3) Ir a gente servir – «Os trabalhadores assalariados ou servos adstritos a um patrão ou senhor que exerce a sua autoridade e os remunera, tinham remotamente ocupações diferenciadas: nas habilitações domésticas ? Para trabalhos caseiros, com a designação que ainda hoje se mantém de criados ou serviçais. São geralmente do sexo feminino, mulheres adestradas em preparar no lume os alimentos; ou em se entregarem aos arranjos domiciliários ? as criadas-de-quarto ou criadas-de-fora. Havia também as amas-de-leite, que amamentavam as crianças alheias e as amas-secas, que tratavam de meninos de peito, nutridos estes com o leite materno. As antigas criadas portuguesas, zelosas, fiéis e afeiçoadas, que acompanhavam a vida doméstica em comum, servindo obedientemente várias gerações com nobre dedicação, a ponto de quase se integrarem nas famílias, são legado de um passado remoto que o decorrer dos anos extinguiu.» Felgueiras:1981:91).
(4) Assim-assado – neste caso específico, expressão para referir “estes e aqueles” de um determinado espectro de profissões.
(5) Atão – “então”, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial.
(6) -Le – ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).
(7) Qu’o – que o (houve supressão da vogal e para reproduzir a pronúncia).
(8) Na’ – não (houve supressão da vogal o para reproduzir a pronúncia).
(9) Chalaças – «Dito gracioso e picante» http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&pesquisa=1&palavra=chala?a.
(10) ‘Tá – está (pronúncia popular do verbo “estar”, conjugado).
(11) Be’jar – beijar (houve supressão da vogal i para reproduzir a pronúncia).
(12) Aprove’ta – aproveita (houve supressão da vogal i para reproduzir a pronúncia).
(13) Desfe’ta – desfeit. Houve supressão da vogal i para reproduzir a pronúncia. Significa: «insulto; ofensa; desconsideração» http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa-ao/desfeita.
(14) Cómigo – comigo (houve acentuação do ó para reproduzir a pronúncia).
(15) Pra – “para” (redução da preposição “para”, sua forma sincopada,usadano registo popular, informal - reprodução da pronúncia).
(16) P’ecisa – precisa (houve supressão do r para reproduzir a pronúncia).
(17) Meálhe’ro – mealheiro (houve acentuação do a e supressão do i para reprodução da pronúncia). Um mealheiro pode ser um « Artefacto oco de barro com uma fenda estreita por onde se vai enchendo aos poucos com o dinheiro que se pode juntar. 2. Qualquer outro artefacto semelhante para idêntico fim. (…) 4. Pé-de-meia; pecúlio.» http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=mealheiro
(18) Esses três – «Cal. Virgindade sexual.» http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=três
(19) Ósado – usado.
(20) Lo, la, ? «por o, a. Expressões arcaicas portuguesas. «Eu não lo vi. «Eu não la vi». Procurei-lo.» Neves, Henrique das. (1897-1899). Glossário de palavras, locuções e anexins.Revista Lusitana,Volume V, Lisboa: Antiga Casa Bertrand,224.
(21) Descangalhado – escangalhado (danificado, estragado, desconjuntado).
(22) Contos – cada conto remete para a quantia de mil escudos (o escudo foi substituído pelo euro); pode remeter também para um milhão se a moeda ainda for os réis.
(23) Chucha no dedo – ficas sem o que esperavas; foste logrado.
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
Barreiros, Fernando Braga. (1917). Vocabulário barrosão. Revista Lusitana, Volume XX, Lisboa: Livraria Clássica Editora, Lisboa. p. 141.
Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.
Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.
Felgueiras, Guilherme. (1981). Divagações Etnográficas. Amos, Criados e Moços de Servir. Revista Lusitana. Nova Série 1. Número 1. Instituto Nacional de Investigação Científica, p.91.
http://aulete.uol.com.br;http://michaelis.uol.com.br;http://www.ciberduvidas.com;
http://www.infopedia.pt;http://www.mirandadodouro.com/dicionario/;
http://www.priberam.pt