Os amigos que a gente tem
«De amigos que eu possuía
já só me restam saudades.
E quem não aparece, esquece.
Acabam as amizades.
Esses grandes companheiros,
amigos de longa data,
mas onde a vida é ingrata
os últimos são os primeiros.
Mas os amigos verdadeiros
falavam no que eu fazia.
Mas soava alguém que dizia:
ele como homem já não presta!
E é tudo quanto me resta
de amigos que eu possuía.
É vulgar ouvir-se dizer:
o tempo dele passou.
Fez falta enquanto prestou.
O que é que ele hoje pode fazer?
E nós aqui temos que ter
pessoas de outras idades.
Não são boas nem más vontades,
mas temos que manter a linha.
Dos grandes amigos que eu tinha
Já só me restam saudades.
Ficam as recordações
que lembram o dia-a-dia.
Tudo passa a esquecido.
Ficam as recordações
que lembram-me de longe a longe
do que foi ganho ou perdido.
Por não ser o que tenho sido
é que isto tudo acontece.
Mas quando a idade cresce
tudo se torna diferente
e quem deixa de estar presente
não aparece, esquece.
Mas ainda acredito em alguém
que sempre me acompanhou.
Que eu era o mesmo que sou
quando tudo estava bem.
Mas os amigos a cem por cem
têm dificuldades.
Discutem-se qualidades.
Todos querem ter razão.
E mudam de opinião,
acabam as amizades.»
Eusébio Pereira, Grândola, Fevereiro de 2007