Quero ser bom quando morrer
«Não tenho pressa de ser bom
porque gosto de viver.
Quem quer ser bom morre ausente.
E eu quero ser bom quando morrer.
Quem nunca se convenceu
na minha pura lealdade
só aceita esta verdade
quando eu deixar de ser eu.
Assim que a pessoa morreu,
toda a gente lhe dá razão.
Mas enquanto em vida não!
São contra aquilo que eu pretendo.
E pra ser bom quando morrendo
não tenho pressa em ser bom.
Eu sei que estou a lutar
por uma causa perdida.
Mas enquanto tiver saúde e vida
na’(1) quero perder o lugar.
Por vezes dou-me em lembrar
do que eu me havia d’ esquecer.
Mas a ganhar ou a perder,
na’ quero saber de censuras.
E só me meto em aventuras
porque gosto de viver.
A história do meu passado
na’ dá prazer a ninguém.
Mas pôr-me mal, para parecer bem
só se for obrigado.
Não sei para o que estou guardado
e o que sei pouco adianta.
Mas quando a vida se comenta,
por ter outras tradições,
só há duas opções:
quem quer ser bom, morre ausente.
Se é pessoa inteligente,
que faz valer os seus direitos
começam-lhe a pôr defeitos.
Que não agrada a toda a gente.
E pra quem não diz tudo o que sente,
ainda é pior o sofrer.
E é caso para dizer
não tenham pena de mim.
E chamem-me em vida ruim
que eu quero ser bom quando morrer.»
Eusébio Pereira, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Na’: abreviatura oral de “não”.