São horas de me despedir
«São horas de me despedir.
Estou a morrer esquecido.
E não vale a pena ateimar(1)
que o tempo é todo perdido!
Os amigos ‘tão(2) como eu.
Com eles não posso contar.
É triste, mas é vulgar
falar do que aconteceu.
O que passou, esqueceu.
Não se torna a repetir.
E não vale a pena fingir
com palavras ou sinais.
Por estas e outras mais,
são horas pra me despedir.
Se estou calado, aborreço-me.
Começo a falar, chateio-me.
E há momentos que receio
falar daquilo que eu conheço.
Já em nada me pareço
com aquilo que eu tenho sido.
Há sempre um mal entendido
quando eu começo falando
e tenho que me ir preparando
que estou a morrer esquecido.
Os anos são os culpados
do que se passa comigo.
Já ninguém ouve o que eu digo
são anos mal empregados.
*Por mal dos me’s pecados*(3)
deixam pouco a desejar
e tudo começa a faltar
quando o tempo passando.
E seja a rir, seja chorando
não vale a pena ateimar.
São anos pa’(4) esquecer
e aceitar a verdade,
que os defeitos da idade
não se podem esconder.
Muito fica pra dizer
por quem se entrega vencido.
E por aquilo que tenho ouvido
sei o que pensam de mim.
Mas pra(5) quem se despede assim
o tempo é todo perdido.»
Eusébio Pereira, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Ateimar – similar a teimar.
(2) ‘Tão – abreviatura de “estão”.
(3) Por mal dos me’s pecados – por infelicidade minha.
(4) Pa’ – abreviatura de “para”.
(5) Pra – abreviatura de “para”.