Quando t’eu vejo
«Quando t’ eu vejo, meu bem,
ao rosto me assobe(1) a cor.
E antes que era, não posso
negar, que fui teu amor.
Quando t’eu vejo chegar
a lugares onde eu estou,
lembro-me o que se passou,
eu quero e não posso abalar(2)!
Começo-me a recordar,
daqueles tempos de além(3),
qu’ era eu pra(4) ti alguém
e hoje penso no resultado.
E recordo o tempo passado
quando t’ eu vejo, meu bem!
Começo a relembrar
que fostes minha e eu fui teu.
E sabes que me pertenceu
o direito a esse lugar.
E hoje só o que posso dar
são provas do teu valor,
que és tu aquela flor,
que eu bastante gosto tinha!
E lembrar-me que fostes minha,
ao rosto me assobe a cor.
Antes que queira negar
que nunca te tive amizade,
é tão grande a saudade
que me obriga a confessar.
E como t’eu oiço falar
aumenta em mil remorsos!
Foi tão grande esses esforços,
hoje vejo tudo perdido!
Mas tirar de ti o sentido
antes que era, não posso!
Mesmo que queira fingir
que nunca te amei, com certeza
ao ver-te assim de surpresa
nota-se no me’(5) sorrir!
Lembra-me bem de te ouvir
as tuas razões impor.
E ao lado de outro senhor
vejo a figura que faz,
mas eu quero e na’(6) sou capaz
de negar que fui teu amor.»
Eusébio Pereira, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Assobe– sobe.
(2) Abalar – ir embora.
(3) Além – longínquos.
(4) Pra – o mesmo que “para”(redução da preposição para usadade modo informal e coloquial).
(5) Me’ – abreviatura oral, de uso informal e coloquial, de “meu”.
(6) Na’ – abreviatura oral de “não” (uso informal e coloquial).
Para a execução deste glossário consultaram-se os seguintes websites: http://www.priberam.pt; http://www.infopedia.pt