Encontra-se abandonada
«Encontra-se abandonada
a cama aonde(1) eu dormia.
E hoje durmo numa emprestada
que eu nem sequer conhecia.
As mantas e o colchão
já perderam a cor.
Os lençóis têm bolor
da humidade do chão.
Seja de Inverno ou de Verão
‘tá(2) sempre a porta fechada.
É uma casa desprezada,
que pra(3) tanta gente serviu,
e por quem lá comeu e dormiu
encontra-se abandonada.
Mas eu vou passando por lá
enquanto o puder fazer.
Mas é apenas pra ver
se a cama ainda lá está.
Mas só lá falta o que não há:
é amor, é alegria.
Tudo se perde num dia,
numa hora ou num minuto,
mas ainda se encontra de luto(4)
a cama onde eu dormia.
São tristes recordações
duma(5) vida prolongada.
É uma história pesada,
cheia de contradições.
E em conhecer as razões,
há muita gente interessada,
mas é a meio, de tudo ou nada.
A sorte na’(6) se adivinha
porque eu tenho uma cama minha
e eu durmo numa emprestada.
São os anos, é a idade.
É o fim, é o destino.
Passar de velho a menino
na’ é da minha vontade.
A vida sem qualidade
não é a vida que eu queria.
A cama que me recebia
sempre ‘teve ao dispor
e hoje durmo numa por favor,
que nem sequer conhecia.»
Eusébio Pereira, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Aonde – onde, em que.
(2) ‘Tá – abreviatura oral, de uso informal e coloquial, de “está”.
(3) Pra – o mesmo que “para”(redução da preposição para usadade modo informal e coloquial).
(4) Luto – traje escuro em sinal de tristeza, no caso não pela morte mas, pela ausência prolongada de alguém.
(5) Duma – contracção da preposição de e do artigo uma (de+uma).
(6) Na’ – abreviatura oral de “não” (uso informal e coloquial).
Para a execução deste glossário consultaram-se os seguintes websites: http://www.priberam.pt;http://www.infopedia.pt;http://aulete.uol.com.br