Caminhando para a sepultura
Por cada dia que vai passando
eu dou um passo cadenciado
para a minha eterna morada
porque nela sou sepultado.
Eu sei que já ao mundo nasci.
Não sei dessa recordação
e sem ter qualquer noção
como cá apareci.
Sou vivente, estou aqui.
Muitas vezes vacilando,
chego a ficar pensando
que na idade fui subindo,
mas vão as forças fugindo
por cada dia que vai passando.
Pode ser longa a caminhada.
Curta também pode ser.
Porque quem nasce, tem de morrer
se estiver a vida findada(1).
Ao findar essa jornada
que tudo fique descansado.
Depois de tudo findado
reina a paz e a harmonia.
Com a passagem de cada dia
eu dou um passo cadenciado.
Eu não parei no caminho
e não fiquei parado olhando.
Porque o tempo, esse, é daninho(2)!
Passou depressa voando.
Com lentidão vou andando,
com marcha cadenciada,
com a memória já cansada
por me faltar a coragem
ao iniciar a viagem
para a minha eterna morada.
Já estou a meio da subida
para chegar ao cimo do monte.
E prevejo que, no horizonte,
vai ser penosa a descida
nesta carreira seguida,
que o destino está marcado.
Já me julgo velho e cansado
fazendo fraca figura,
caminhando para a sepultura
porque nela sou sepultado.
Manuel Augusto Francisco (Rusga), Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Findada – acabada.
(2) Daninho – causa estragos, danoso.
Para a execução deste glossário consultaram-se as seguintes fontes: http://www.priberam.pt; http://www.infopedia.pt/; http://aulete.uol.com.br