Os dois surdos
(…) Um António aqui (…) que era surdo. E o outro também era surdo.
Iam a passar (…) encontrou-o:
- Ói! – Assim…- ‘Tás(1) bom?
Diz-le(2) ele, andava então numa curtinha(3), tinha nogueiras, andava atão(4) a apanhar as nozes e lá:
- Ói! – disse ele - ‘tás bom?!
Diz: - Não! Não teno(5) nada! ‘Tão todas furadas. Umas poucas (…). - Pois, ele entendeu assim.
Mas o outro, como não entendeu também a conversa, que também era surdo, continuou:
- Então e as vossas filhas são muito (…).
- Não, senhor! ‘Tão todas furadas! Não…
Pronto, aquilo passou. O outro (…) pa’(6) São Pedro. E ele ficou-se ali pensando que (…) que tinha falado bem um e outro.
Passando um outro que andava ali perto, oubiu(7) a conbersa e levou-a pa’ taberna(8). Levou a conbersa pa’ taberna e depois é que soube que a conbersa deles, coitados, né(9)? O homem num(10) sabia nada, mas (…).
José António Esteves, Vimioso, Outubro de 2010
Glossário:
(1) ‘Tás – ‘estás’ ( pronúncia popular do verbo “estar” conjugado).
(2) -Le – ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).
(3) Curtinha – cortinha, por hipótese, « s.f Terreno agrícola, maior do que quintal, murado, situado junto da habitação ou perto dela (Fornos-FEC).» Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.125
(4) Atão – “então”, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que, no caso, denota espanto.
(5) Teno – ‘tenho’ (em mirandês).
(6) Pa’ – ‘para’ (usadode modo informal e coloquial).
(7) Oubiu – ‘ouviu’ (trocar o “b” pelo “v” é um traço fonético comum nos dialectos do Norte do Portugal).
(8) Taberna – tasca, loja de comes e bebes e onde se vendia vinho a retalho.
(9) Né? – não é? Contracção do advérbio ‘não’ e da forma verbal ‘é’ – “não é”?
(10) Num - não (linguagem, uso coloquial).
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
Barreiros, Fernando Braga. (1916). Tradições populares de Barroso. Revista Lusitana, Volume XIX. Lisboa: Livraria Clássica Editora, p. 76
Barreiros, Fernando Braga. (1937). Vocabulário Barrosão. Revista Lusitana Volume XXXV, Lisboa: Livraria Clássica Editora. P. 290
Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254
Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243
Vasconcellos, José Leite de (1883-1895 ) «Dialecto transmontano», Opúsculos, vol. VI Dialectologia (Parte II), organizado por CINTRA, Maria Adelaide Valle, Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1985, pp. 139
VIANA, Aniceto dos Reis Gonçalves (1887-1889). Materiais para o estudo dos dialectos portugueses - Fallar de Rio Frio, typo bragançano dos dialectos transmontanos), Revista Lusitana, Volume I.