A vassoura
«Era uma vez uma menina que *foi servir*(1). E era muito novinha!
E quando começou a crescer, começou a ser mulher, começou-lhe a crescer-lhe os pelinhos da…vá! E ela, coitadinha, andava toda atrapalhada, porque ela pensava que aquilo que era uma grande doença que ela tinha.
Chega à patroa, diz assim:
Criada - Ai, minha senhora, eu quero-me ir embora!
Patroa – Atão(2), porquê? Porquê que a menina se quer ir embora?
Criada - Ai, minha senhora! Tenho aqui um mal…Nasceu-me aqui um mal… - Ela pensava que aquilo que era um grande mal!
Ai, ela dizia:
Criada - Nasceu-me aqui uma vassourinha… - Que lhe tinha nascido ali uma vassourinha!
Ela disse:
- Então, deixa-te estar Maria! Deixa-te estar. - A’pois(3) disse: - Queres ver? Eu também tenho Maria! Eu também tenho! – Ela mostrou-lhe.
E quando chegou o patrão, diz assim:
Patroa - Oh! Mas que a Maria quer-se ir embora, só porque tem ali isto, assim, assim… Diz que lhe nasceu lá uma vassourinha!
E o patrão disse assim:
- Ó Maria! Queres ver?! Eu também tenho! – A’pois o senhor mostrou-lhe.
Disse:
Criada - Ai, patrão! A sua é que é engraçadinha, a sua até tem cabo e tudo!
A vassourinha até tinha cabo e tudo!
Adepois(3) diz assim:
Criada - Mas eu ainda me vou embora! Eu vou-me embora na mesma!
Mesmo assim se quis ir embora.»
Mariana Leitão, Zebreira, Idanha-a-Nova, Setembro de 2010
Glossário:
(1) Ir servir – «Os trabalhadores assalariados ou servos adstritos a um patrão ou senhor que exerce a sua autoridade e os remunera, tinham remotamente ocupações diferenciadas:nas habilitações domésticas - Para trabalhos caseiros, com a designação que ainda hoje se mantém de criados ou serviçais. - São geralmente do sexo feminino, mulheres adestradas em preparar no lume os alimentos; ou em se entregarem aos arranjos domiciliários - as criadas-de-quarto ou criadas-de-fora. Havia também as amas-de-leite, que amamentavam as crianças alheias e as amas-secas, que tratavam de meninos de peito, nutridos estes com o leite materno.As antigas criadas portuguesas, zelosas, fiéis e afeiçoadas, que acompanhavam a vida doméstica em comum, servindo obedientemente várias gerações com nobre dedicação, a ponto de quase se integrarem nas famílias, são legado de um passado remoto que o decorrer dos anos extinguiu.» Felgueiras, Guilherme. (1981). Divagações Etnográficas. Amos, Criados e Moços de Servir. Revista Lusitana. Nova Série 1. Número 1. Instituto Nacional de Investigação Científica. P.91. PDF consultado em 17-12-2010, 13:45, disponível em:http://www.fl.ul.pt/unidades/centros/ctp/lusitana/rlus_ns/rlns01/rlns01_p91.pdf
(2) Atão - “então”, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial.
(3) A’pois e Adepois – “a seguir”,“depois” (uso popular e coloquial).
Na execução deste glossário consultaram-se: http://www.ciberduvidas.com;
http://www.fl.ul.pt/unidades/centros/ctp/lusitana/rlus_ns/rlns01/rlns01_p91.pdf
http://pinhel1970.blogspot.com/2009/02/73-criada-de-servir.html;
http://www.infopedia.pt