[Os sete infantes de Lara]
«Sempre te estou a chamar
e não me queres responder,
se não me queres servir,
sai diante mulher.”
E depois responde a criada:
“Minha vida é servir,
a minha i-ama acompanhar.
Farei bem o que me manda,
para melhor me pagar.”
Responde-lhe a senhora:
“Se fizeres o que eu te mando,
grande prémio ganharás,
de ir afogar meus filhos,
que tive sete e a todos não posso dar de mamar.
“Venha cá esse estareilho(?)
muito bem aparelhado.
Antes que meu amo chegue
Terei os todos afogados.
Vejo além um caçador,
que me faz a mim temer.
Se é o pai dos meninos,
que será de mim mulher?
Que trazes minha criada?
nesse grande cestarilho.
Por ventura tu me trazes
guisadinho algum coelho?
Nossa cadela pariu e
a minha i-ama me mandou
afogar os cachorrinhos,
ela só com um ficou.
Mostra cá mulher,
mostra cá a criação.
Valha-me Deus, isto é
parte do meu coração!
Ó mulher enganadora
que me querias enganar.
Querias afogar meu fruto,
que um dia me há-de consolar.
A minha i-ama me mandou
afogá-los na clara e ela me prometeu,
que não dissesse nada à seu,
um vestido azul da cor do céu.
Pois eu também te darei
vestido de grande valor.
Vai para casa e i-ama,
mostra-lhe muito amor.”
“Oh, que cansada me vejo,
que fatiga eu apanhei.
Venha o fato minha i-ama,
já cumpri o seu desejo.
Então não te viu Gonçalo,
nem nenhuma dessa gente?
Eu não vi Gonçalo,
nem nenhuma dessa gente.”
Maria Vara, Vimioso, Outubro de 2010