O Lavrador de Arado
Indo o Lavrador do Arado, ó meu bom Jesus,
encontra um pobrezinho.
O pobrezinho lhe disse, ó meu bom Jesus:
- Leva-me no teu carrinho.
Desamontou-se(1) o lavrador, ó meu bom Jesus,
a montar o pobrezinho.
Levou-o prà(2) sua casa, ó meu bom Jesus,
prà melhor sala que tinha.
Mandou-lhe fazer a ceia(3), ó meu bom Jesus,
do melhor manjar que havia.
De galinhas e capões(4). ó meu bom Jesus,
óh que ceia não seria!
Sentaram-se os dois à mesa, ó meu bom Jesus,
nem um nem outro comia!
Mandou-lhe fazer a cama, ó meu bom Jesus,
das melhores roupas que tinha.
Por cima damasco(5) roxo, ó meu bom Jesus,
por baixo cambraia(6) fina.
Lá pela noite adiante, ó meu bom Jesus,
o pobre muito gemia.
Levantou-se o lavrador, ó meu bom Jesus,
a ver o que o pobre tinha.
Achou-o crucificado, ó meu bom Jesus,
numa cruz de prata fina.
- Quem soubera, ó Meu Deus - ó meu bom Jesus,
que na minha casa vos tinha!
Trinta almas que eu tivesse, ó meu bom Jesus,
todas trinta vos daria!
Como tenho senão uma, meu bom Jesus,
vá na vossa companhia!
- Alegra-te, ó lavrador! ó meu bom Jesus,
que já tens o céu ganhado(7).
Já lá tens uma cadeirinha, meu bom Jesus,
para lá estares assentado(8).
- Porque quando o lavrador disse:
- Eu vos peço ó Meu Deus, ó meu bom Jesus,
também pela mulher minha.
- Pela tua mulher, não! ó meu bom Jesus,
– Que esta noite não dormia!
Julgava que tinha em casa, ó meu bom Jesus,
o maior ladrão que havia!
Maria Clara, Idanha-a-Nova, Setembro de 2010
Maria Clara, Idanha-a-Nova, Setembro de 2010