História de vida
Há a ciência sem aprender
e há a ciência aprendida.
E há quem deixe tudo escrito,
a história da sua vida.
Desde a data em que nasceu
vai tentando a sua sorte.
E até chegar ao dia da morte,
muita coisa já sofreu.
Quem diz isto sou eu.
É verdade, possam crer.
Por não saber ler e escrever
não deixa de não ser poeta,
porque na pessoa analfabeta
há ciência sem aprender.
Quem andou a estudar,
muitos anos no estudo,
começou logo em miúdo
a aprender a falar.
E pra(1) saber procurar
a palavra bem definida
se for igual e parecida
no mesmo espaço cabe,
mas isso faz quem sabe
a ciência aprendida.
Logo por aqui já podem ver
e reparem e vejam bem.
O que é que eu nisto quero dizer?
E como é que pode ser eu chegar mais além?
Só digo o que à memória me vem.
‘Teja bem ou mal dito
eu digo e repito
as vezes que eu entender:
em todo o seu saber
há quem deixe tudo escrito.
Eu tenho muita obra escrita
por uma senhora e um senhor
que viram que eu que era autor
e tinha uma obra bonita.
Esse sabe e tem a dita
que a minha obra não é aprendida.
E a pessoa que não é instruída
muito longe não alcança,
mas morre e deixa por lembrança
a história da sua vida.
Luís Ricardo, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário
(1) Pra – abreviatura oral de “para a”.