A velhice assim chegou
«Ainda sou o mesmo que era.
Aquilo que eu era é que já não sou.
Porque os anos foram-se passando
e a velhice assim chegou.
Já nada me mete alegria.
Tudo me faz aborrecer.
Porque eu já não posso fazer
certas coisas que eu fazia.
Eu penso de noite e de dia
no tempo da Primavera.
O tempo vai e não espera.
Toda a vida assim tem sido,
mas no pensar e no sentido
ainda sou o mesmo que era.
Não posso já é fugir.
Tenho que ir devagarinho.
Mas com o tempo e jeitinho
ainda vou onde queria ir.
E já de nada me deixo cair,
qualquer tendão que doe,
prá onde tente lá vou
com as mãos direito ao chão.
Mas prá(1) aceifar(2) e atar o pão
aquilo que eu era já não sou.
Já vejo poucachinho(3)
e não ouço aquase(4) nada.
E tenho a cara enrusgada(5)
e o cabelo já branquinho.
Agora é que eu vi o caminho.
E por ele vou andando.
Eu nunca ‘tava(6) julgando
chegar ao que eu cheguei,
mas tantas voltas que dei
e os anos foram-se passando.
Sinto o corpo descaído.
E a força enfraquecer.
E tenho deficiência no ver
e ‘ficuldades(7) no ouvido.
Eu levava o caso a rir
quando dizia o meu avô:
“desde qu’a(8) roda desandou…”
A partir daquela hora
a mocidade foi-se embora.
E a velhice assim chegou.»
Luís Ricardo, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Prà – abreviatura oral de “para a”.
(2) Aceifar – o mesmo que ceifar (cortar ou bater cereais com gadanha ou foice).
(3) Poucachinho – muito pouco. Similar a poucochinho.
(4) Aquase – quase.
(5) Enrusgada – enrugada.
(6) ‘Tava – abreviatura oral de “estava”.
(7) ‘Ficuldades – abreviatura oral de “dificuldades”.
(8) Qu’a – abreviatura oral de “que a”.
Para a execução deste glossário consultaram-se as seguintes fontes: http://bemfalar.com; http://aulete.uol.com.br; http://www.priberam.pt/; http://www.infopedia.pt