Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Falcoaria

Designação:  Falcoaria
Freguesia:  Salvaterra de Magos
Concelho:  Salvaterra de Magos
Distrito:  Santarém
Data de recolha:
 2015

 

 

Dados de inventário
  • Falcoaria
  • A falcoaria é uma modalidade de caça praticada em Portugal desde o séc. XII e assinalada no território desde a fundação da nacionalidade. Praticada por homens e mulheres um pouco por todo o país, a quem se dá o nome de falcoeiros, a sua prática manteve-se, em grande parte, inalterada ao longo dos séculos. Ainda hoje os falcoeiros utilizam técnicas, nomenclatura e materiais que distinguem esta prática ancestral. O respeito pela ave de presa, pela presa e pela Natureza são fundamentos de cada falcoeiro. A beleza do lance de caça é o valor máximo da falcoaria.

Caracterização
  • A falcoaria consiste na utilização de aves de presas treinadas para a caça de animais selvagens no seu ambiente natural. Para isso o falcoeiro tem de munir-se de conhecimentos específicos sobre as aves de presa, o seu treino, sobre as espécies a capturar e seus habitats. O falcoeiro deve usar a sua sensibilidade e os conhecimentos desenvolvidos pela falcoaria, ao longo de séculos, para treinar a ave de presa e a manter em excelentes condições. Isto envolve cuidar da sua saúde e melhorar continuamente a sua condição física. Depois do processo de treino, falcoeiro e ave de presa, forjam uma parceria única. No ambiente natural das suas presas esta parceria procura vencer as estratégias naturais de fuga da presa para conseguir a sua captura. O valor mais elevado nesta demanda é o da beleza do lance de caça e não a da captura da presa.

     

    Sobre a Prática da Falcoaria

    "Na prática distingue-se entre o alto-voo e o baixo-voo:

    alto-voo é o mais espetacular e também o mais difícil, o mais exigente e o que reúne um maior número de condicionalismos, a par de uma menor rentabilidade na captura de peças. Neste tipo de lance são usados falcões que perseguem as suas presas no ar durante grandes distâncias e muitas vezes a grande altura. Este foi, pela sua beleza, o lance clássico da falcoaria europeia. O falcão necessita estar nas melhores condições físicas para conseguir superar a sua presa, uma vez que muitas das capturas dão-se em pleno voo.

    altanaria é considerada uma vertente do alto-voo. Neste lance, o falcão é solto antes da peça de caça levantar voo, de modo a que ascenda sobre o terreno de caça - "remontando" - até se colocar bem alto (na ordem da centena de metros), onde aguardará descrevendo pequenos círculos ou "tornos". Ao levantar-se a caça, o falcão cai do céu num perfurante e rapidíssimo voo picado, podendo atingir velocidades próximas dos 300 km/hora. A maioria das capturas ocorre em voo, mas ocasionalmente algumas presas são mortas por impacto. Esta modalidade requer grandes espaços abertos, pouco arborizados. Caçam-se aves como corvídeos, patos, perdizes e faisões.

    Em baixo-voo, o lance é mais simples e produtivo na cobrança de peças de caça, mas não menos dinâmico. Neste tipo de lance, a ave caçadora é lançada diretamente do punho enluvado do cetreiro (ou de um poleiro proeminente) no encalço da peça de caça já em voo ou corrida. Depois desenvolvem-se todos os movimentos de fuga e perseguição. Quando a ave alcança a presa geralmente produz-se "o agarre", tendo nesse momento a ave de demonstrar grande bravura e mestria para abater a sua presa.
    As aves de presa geralmente usadas nesta variante são açores, búteos ou águias. Para esta modalidade, qualquer terreno é adequado: planura ou montanha, bosque, ribeira ou campina, podendo caçar-se tanto "pena" (patos, perdizes, faisões) como "pelo" (lebres e coelhos bravos).

    Texto da Associação Portuguesa de Falcoaria  in http://www.apfalcoaria.org/ (23-02-2015)  

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  • Falcoaria

    Não sendo possível apontar com precisão uma data para o início da prática da Falcoaria, podemos balizar o seu aparecimento como uma forma de subsistência, utilizada pelo Homem, que desempenhava um papel de espectador ativo, assistindo à forma eficaz com que falcões e outras aves de presa capturavam outras espécies, muitas vezes de porte superior ao seu.
    Com o passar do tempo, o Homem percebe que ao invés de roubar as presas aos falcões, seria mais vantajoso treina-los a devolvê-las, sendo a partir de então possível falar-se de Falcoaria, momento em que surge a interação entre Homem e Falcão.
    Ao Homem compete não só o adestramento dos falcões, como o seu bem-estar e segurança. Do falcão espera-se que utilize as suas verdadeiras e naturais qualidades de predador, em prol desta equipa, onde lhe cabe o papel de intermediário, aguardando a recompensa pelo seu desempenho.
    Podemos apontar algumas datas, em que, seguramente, já se caçava com aves de presa. O primeiro exemplo é o de um baixo–relevo assírio, onde está representado um homem com uma ave no punho, encontrado nas ruínas de Korsabad, durante as escavações ao Palácio de Sargão II. Este é o mais antigo testemunho iconográfico que se conhece sobre falcoaria, podemos apontá-la como uma arte que se pratica, pelo menos, desde o ano de 1400 a. C.
    No Egito, os falcões surgem como uma representação da re-encarnação divina do Deus Horus, Deus da Lua, do Sol e dos Faraós (Crespo, 1999: 7). Sabemos que era um animal sagrado, que não era utilizado para a caça, mas acreditavam que a sua imagem transmitia força e proteção, funcionando como amuleto da sorte.
    Segundo M. S. Baêna e J. M. Bravo (Oito Séculos de caça em Portugal, Eurolitho: Lisboa, 1998), a chegada desta arte à Península Ibérica tem dois focos de disseminação: um a norte a partir da Europa Central, através dos Visigodos (séc. V) outro a Sul, com os povos do Norte de África (Berberes) e do Médio Oriente (Árabes).
    As primeiras referências a este tema datam do ano de 506, quando as autoridades eclesiásticas proíbem o Clero de praticar Falcoaria (Crespo, 1999: 63).
    A Idade Média, sem dúvida, época de Ouro da Falcoaria em Portugal, assumiu na Europa uma técnica própria, incrementada tanto pelas elites como pelos grupos populares. Foi também durante este período que a falcoaria deixa de ser uma simples forma de caça e passa a ser uma das distrações prediletas da nobreza, ou, como dizia Fernão Lopes, "folgança e desenfadamento de príncipes e reis" segundo a descrição de (Crespo, 1999: 12).
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Identificação
  • Domínio
    • Conhecimentos práticos da natureza e universo
    • Competências em processos e técnicas tradicionais
  • Falcoaria.
  • Falcoeiros individuais; Associação Portuguesa de Falcoaria
  • 1991 (APF)
  • Não se aplica
Contexto de produção
  • Falcoeiros individuais; Associação Portuguesa de Falcoaria
  • 1991 (APF)
Contexto territorial
  • Salvaterra de Magos
Contexto temporal
  • Não se aplica
Manifestações associadas
  • Caçadas conjuntas, encontros de falcoeiros. Saber associado à arte de contrução de materiais e acessórios (de criação, treino e caça) - Aljaveira; Caparão; Luva; Piós.

  • Falcoaria Real ( Salvaterra de Magos) e Pombais

    Equipamento e acessórios de criação, treino e caça (Alcândora; Aljaveira; Apito; Arco; Avessada; Banco; Banho; Balança; Caparão; Cascavéis; Faca-de-caça; Fiador; Luva; Malhos; Piós; Rol.)

  • Aves de presa, espécies cinegéticas, habitats naturais.

Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Todos os falcoeiros devem ser considerados como agentes de transmissão da prática da falcoaria. Associação Portuguesa de Falcoaria.

    Transmissão ocorre, maioritariamente, por transmissão directa de conhecimentos entre os aprendizes e falcoeiros com experiência. Existe alguma bibliografia sobre falcoaria que permite aos aprendizes apreender algumas noções básicas sobre a arte. A associação portuguesa de falcoaria e algumas empresas privadas promovem cursos de iniciação à modalidade. Os conhecimentos são testados com a realização da prova de admissão à carta de caçador pelo governo de Portugal.

Direitos Associados
  • Os direitos coletivos são de tipo consuetudinário.

  • Comunidade de falcoeiros 

Acções de Salvaguarda
  • A falcoaria tem mantido a sua forma tradicional ao longo dos anos, alterando-se contudo o contexto social e alguns materiais dos instrumentos utilizados. A comunidade de falcoeiros não considera a prática em risco ou ameaçada, mas são importantes ações de salvaguarda para manter e para transmitir este saber. Os conhecimentos e práticas encontram-se atualmente asseguradas por cerca de 50 falcoeiros que estão no ativo e pela Associação Portuguesa de Falcoaria (com 150 associados).

  • Melhoria da legislação relativa à caça que regula a prática da falcoaria;
    Melhoria da legislação relativa à detenção e registo das aves de presa;
    Implementação de um programa formal de preparação para a prática da falcoaria;
    Implementação de medidas de proteção das presas e habitats naturais;
    Inventariação e divulgação do património associado;
    Realização de cursos de iniciação;
    Realização de cursos temáticos;
    Realização de encontros formais e informais de divulgação da prática;
    Desenvolver programas de promoção social, em especial para crianças em idade escolar;
    Realização de um programa de atividades da Falcoaria Real de Salvaterra de Magos;
    Demonstrações, para os visitantes da Falcoaria Real, das aves de presa que aí se encontram;
    Introdução de melhorias no programa museológico da Falcoaria Real;
    Apoio a acções de preservação e investigação sobre as aves de presas e seus habitats;
    Criação de um centro de documentação sobre Património Imaterial, incluindo a Falcoaria.

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Filipe Themudo Barata; Pedro Afonso e Patricia Leite
  • José Barbieri
Arquivo
  • Não se aplica
  • 4/Falcoaria

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