Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Barnabé o Mixordeiro

nome:
Maria Augusta Martins Falcão
ano nascimento:
1935
freguesia: Caçarelhos
concelho:
Vimioso
distrito:
Bragança
data de recolha: Outubro 2010
 
 
 

Dados de inventário
  • Barnabé o Mixordeiro
  • Vimioso

    "Barnabé o Mixordeiro" - Testemunho de um comerciante desonesto que vai parar ao Inferno.

     

    Maria Falcão, ano de nascimento 1935, Caçarelhos.

    Registo 2010.

Transcrição
  • Barnabé Pinto Carneiro/Barnabé, o mixordeiro

     

    Carta do Reino do Céu(?), 3 de Agosto do Ano de Nosso Senhor, é daqui que te escrevo prezado e amigo leitor:

     

    Vou contar-te a minha história,

    preste-me toda a atenção,

    tudo quanto cá se passa

    vou fazer-te a narração.

     

    Dizem os sábio da Terra

    que vida eterna não há.

    Veremos a cara que eles fazem

    quando eles venham pra(1) cá!

     

    Noutros tempo também eu

    a mesma coisa dizia.

    E com estes bichões

    a mesma perna fazia.

     

    Daqui vos aviso agora,

    para que a mocidade

    fique sabendo que existe,

    além da campa, a eternidade!

     

    Eu na Terra fui chamado

    Barnabé Pinto Carneiro,

    onde exercia as refeições.

    Afamado mixordeiro(2).

     

    Era o rei dos mixordeiros,

    muita mixórdia fazia

    e com rara habilidade

    enganava a freguesia(3).

     

    Deitava telha miúda no colorau,

    pra mais pesar.

    Mijava no bacalhau,

    pra o não deixar secar.

     

    Com caganetas(4) de cabra

    e de burro igualmente

    eu fazia bom café,

    pra vender a toda a gente.

     

    Da abóbora(?) fazia mel

    que vendia por bom preço.

    E o pão que lá cozia

    que era quase todo gesso.

     

    Mas um dia veio a Morte,

    Prà(5) vida me tirar.

    Não lhe pude resistir

    e o remédio foi marchar.

     

    Sozinho, mas sano(?),

    sessenta anos vivi.

    No logre do casamento

    por sorte nunca caí.

     

    Porque isto [de] ser casado,

    digo-vos aqui em segredo,

    é bem pior que uma penhora,

    mais vale ir para o degredo(6)!

     

    Basta a sogra, com mil raios,

    pra nos dar cabo da pinha(7).

    *São piores que a sarna*(8)

    e a mais (…).

     

    Um dia veio a Morte

    prà vida me tirar.

    Não lhe pude resistir

    o remédio foi marchar!

     

    Depois de eu morrer,

    ó que grande punição!

    Atiraram com o meu corpo

    pra dentro de um caixão.

     

    Depois foi prò cemitério

    aonde por muitas foi chorado.

    E numa profunda campa

    ali fiquei de sepultado.

     

    Até às onze badaladas

    tudo esteve sossegado,

    mas às doze badaladas

    o cenário foi mudado!

     

    Senti nas campas vizinhas

    um ranger das fechaduras.

    Olhei, porém nada vi,

    estava tudo às escuras.

     

    Encarei com o Diabo,

    com os olhos faiscantes(?).

    Trazia cabelos pontudos(?)

    e os lábios… verdiscantes(?)

     

    Até ele que me perguntou,

    tinha que o acompanhar.

    - E quem autorizou

    vir-me aqui incomodar?

    - Sou um emissário de Satanás

    que venho pra te levar.

    Tu pertences ao Inferno

    já lá te estão a esperar.

     

    - Ir contigo, prò Inferno?!

    Isso é bom [de] dizer!

    Eu vou mas era para o Céu,

    eternamente viver.

     

    A ti, no Céu não te querem!

    Porque tens sido um ladrão!

    Prò Céu não vão criminosos

    sem sofrer a punição!

     

    Monta pra cima deste bicho.

    se ao Céu pertences ir.

    Ele é listo(10), bem depressa

    lá te deve conduzir.

     

    Dum pulo saltei pra cima,

    bastante lhe agradeci(?).

    Mais listo que uma seda,

    ao Reino dos Céus subi.

     

    Mal cheguei diz São Pedro,

    com suas chaves na mão,

    barba branca e careca

    encostada ao portão.

     

    Então ele perguntou-me,

    Eu podia(?) arriscar…

    Eu disse-lhe que queria

    pra dentro do Céu entrar.

     

    - Tira você, um patife,

    tire dessa cabeça o chapéu!

    Atão você não viu ainda

    que eu sou o Guarda do Céu?

     

    -Ó meu bondoso São Pedrinho!

    Tenha de mim compaixão!

    Eu tomei-o por um guarda-nocturno

    lá da minha povoação.

    Mas o Diabo estava perto

    prà conbersa(11) observar

    e logo se apresentou

    prò Inferno o levar.

     

    Mais quatrocentas almas

    tinha já arrebanhado:

    padres, beatas e freiras

    caminhavam a seu lado.

     

    Vi lá ir uma freira,

    tão linda como os anjinhos.

    Já me estava a apetecer

    cobri-la de abraços e beijinhos!

     

    - A ti, no Céu não te querem!

    Porque tens sido um ladrão!

    Prò Céu não vão criminosos

    sem sofrer a punição!

     

    - Atão(12), tu já não te lembras

    [o] que aos fregueses fazias?!

    De mixórdias e de merdas

    que plo(13) papo lhe metias?

     

    Deitavas telha miúda no colorau,

    pra mais pesar!

    Mijavas no bacalhau,

    pra não deixares secar!

     

    De abóbora(?) fazias mel,

    que vendias por um preço!

    E o pão, lá cozias,

    era quase todo gesso.

     

    Lá, eu quando cheguei ao Inferno,

    tavam a jogar às cartas.

    Depois disse: - Venha de lá o baralho!

    Jogaremos la biscada(14)!

    é coisa que não faço

    desde a semana passada!

     

    Maria Augusta Martins Falcão, Caçarelhos, Vimioso, Outubro de 2010

     

    Glossário:

    (1) Pra – “para” (redução da preposição “para”usadade modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).

    (2) Mixordeiro – aquele que mistura coisas variadas e faz uma comida malfeita, no caso, adulterada.

    (3) Freguesia – conjunto de clientes habituais de uma casa comercial.

    (4) Caganetasexcremento miúdo de, caprinos, ovinos, ratos, etc. em forma de pequeninas bolas; caganitas.

    (5) Prà – “para a” -  uso popular e coloquial (contracção da preposição pra com o artigo ou pronome a).

    (6) Degredo – afastamento, voluntário ou imposto por pena judicial, de um determinado meio, contexto ou ambiente e ida para outras terras; desterro.

    (7) Pinha – cabeça.

    (8) Ser pior que sarna – ser insuportável; pessoa impertinente, pegadiça, maçadora.

    (9) Adepois – “a seguir”,“depois” (uso popular e coloquial).

    (10) Listo – “lesto” (ágil, ligeiro).

    (11) Conbersa – “conversa” (trocar o “b” pelo “v” é um traço fonético comum nos dialectos do Norte do Portugal).

    (12) Atão - “então”, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial.

    (13) Plo – “pelo” (redução de uso informal e coloquial).

    (14) Biscada – jogar à bisca (refere-se a diferentes jogo de cartas para duas ou quatro pessoas).

    Na execução deste glossário foram consultados: http://www.priberam.pt;http://aulete.uol.com.br;

    http://www.infopedia.pt;http://artefactosmouriscas.blogs.sapo.pt/2146.html;

    http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=8163;http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=26437;http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=20561

     

     

     

     

     

     

     

Caracterização
Identificação
  • Barnabé o Mixordeiro
  • Maria Falcão
  • 1935
  • Trabalhadora agrícola reformada.
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Caçarelhos, Vimioso, casa de Francisco Augusto
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Vimioso
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Residentes do concelho de Vimioso que são convidados para iniciativas do Município e Biblioteca de Vimioso. Principais actividades desenvolvidas e que enquadram estas manifestações culturais:

    Sons e Ruralidades em Vimioso

    ANAMNESIS - Encontro de Cinema, som e tradição oral.

    Feira de artes, ofício e sabores

    (ver links em documentação)

Equipa responsável
  • José Barbieri e Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa
  • José Barbieri - realização do documentário (ver link em documentação)

PCI Livro

PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL
MEMORIAMEDIA e-Museu - métodos, técnicas e práticas

+ MEMORIAMEDIA