Entrei no meu quarto e vi…
Entrei no meu quarto e vi
na minha fotografia,
aqui há anos atrás,
a figura que eu fazia.
Por mera casualidade.
Fiquei muito admirado
ao ver meu rosto enrugado.
Isso são frutos da minha idade.
Com toda a sinceridade
eu disso me apercebi.
Ao retirar, me senti
bater forte o coração.
Com certa desilusão
entrei no meu quarto e vi.
Num guarda-fato velhinho,
no espelho assim quadrado,
verifiquei que tinha deixado
ir quase tudo pelo caminho.
Fiquei pensando sozinho
que nada a fazer já havia.
Com aquilo que eu podia
hoje não sou capaz.
Verifiquei que já não sou rapaz
da minha fotografia.
Os anos foram passando
e as minhas forças fugindo.
A potência diminuindo
e o cabelo branqueando.
Tudo isso foi abalando.
Deixei de ser audaz.
Deixei de ser eficaz,
que o destino assim o quis.
Não sei dizer o que fiz
aqui há nos atrás.
Quando era ainda criança,
nos meus tempos de escola,
brincava e jogava à bola
e tudo me vinha à lembrança.
Já não sinto em mim confiança,
isso digo com certa agonia.
Porque eu nunca me parecia
a este ponto chegar.
Por vezes chego a pensar
na figura que eu fazia.
Manuel Augusto Francisco (Rusga), Grândola, Fevereiro de 2007