Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

St. António padrinho

nome:
Idalina Cacito
ano nascimento:
1938
freguesia: St. Clara de Louredo
concelho:
Beja                                           
distrito:
Beja
data de recolha: Abril 2010
 
 

Dados de inventário
  • St. António padrinho
  • Beja

    “St. António padrinho”- Uma menina é afilhada de Santo António. Como condição de afilhada terá de correr mundo aos onze anos disfarçada de rapaz. A sua beleza desperta paixões entre a realeza que a deixam em apuros, mas o padrinho dá uma ajuda…

     

    Idalina Cocito; St. Clara de Louredo; Ano de nascimento: 1938; Concelho de Beja.

    Registo 2010.

Transcrição
  • Santo António padrinho

     

    «Era um homem que tinha muito filho (…) tinha já tanto filho, tanto filho, já na’(1) sabia (…) quem é que havia de convidar pa’(2) padrinho(3).

    Vai, disse assim: - Oh! Onde é que eu hei-de ir convidar pa’ padrinho? (…)

    - Outro moço, filha? Olha(4), atão(5), olha… – Era um homem que rachava lenha. E diz ele assim: - Olha! Convidamos *Santo Antóino* (6)!

    Convidou o Santo Antóino. O home’(7) convidou o Santo Antóino, disse assim:

    - Bom, ela vai ter uma mocinha-mulher. - Era uma mocinha!

     

    Diz ela assim: - Atão, agora? Como é que *a gente(8)* faz as coisas?

     

    - Bom… É moça, mas a gente põe-*le*(9) António! E em tendo onze anos, vai correr mundo. (…)

    - Ah! Atão, mas…

     

    - Veste a roupa de rapaz (…) corta o cabelo e vai correr mundo!

     

    Foi! Foi, chegou ao pé de um monte(10) e disse:

    -(…) Veja lá se quer que eu que eu fique aqui guardando os porcos ou os patos…?

     

    Disse: - Na’, não podes que a gente já temos um.

    Mas chegou à casa do rei, ficou.  (…) - Mas era uma rapariga. Era pa’ ser António, era Santo António que era o nome do padrinho, mas ficou Antónia porque era uma mocinha, era uma rapariga! Já era uma mulher muito bonita (…) - Ele ficou lá trabalhando e guardando os porcos, guardando os patos… (…) A rainha começasse a apaixonar (…) por ele! Que era António! Pensava que era António, via lá uma cara muito bonita de mulher!

    Começou a dizer: - António…

     

    Pensou a mulher assim: - Ai, ai!

    E foi lá ao rei: ‘tava(11) deitado!

    E o padrinho disse-lhe: - Quando te veres nalguma aflição, brada(12) por Santo António!

     

    Bom, ele: - Valha-me aqui o me’(13) padrinho ou valha-me Santo António!

    Bom, ela foi disse assim: - Escuta, vinha cá (…)… - mas ela, coitadinha, era mulher, o que é que queria que fizesse?! - Eu quero ser tua amante… (…) - Nem sempre, na’ era amante: era amigas! (…) – Quero correr amizade contigo – era o que diziam nesse tempo. - Agora eu ‘tou amando, ‘tou enamorado, ‘tou eu amado – tou *na’ sei quê*(14)… Mai’(15) nesse tempo (…) corria a amizade!

    E ela disse: - Ai, na’ posso! Na’ quero, na’ quero! Senão o senhor rei manda-me matar!

     

    E vai, diz ela assim: - Ouve(?)! Vou fazer queixas ao rei!

     

    Fez queixas ao rei! O rei, no outro dia, disse-le:

    - Agora,  tens que ir buscar a minha filha que ‘tá dentro do mar!

    Disse assim: - Valha-me aqui Santo Antóino!

     

    E ele apareceu e disse: - Então? ‘Tire lá(16)!

     

    (…) - A rainha agora quer ser minha amante! E diz que quer que eu vá buscar a filha! ‘Tá dentro do mar! – ‘Tava um anel da filha, ‘tava dentro do mar. E a filha ‘tava encantada nesse anel!

    (…) – Tu agora pedes um cavalo branco. E um escuro! E tu montaste no escuro e leva o branco! (…) E venha aqui Santo António! Depois vem a pombinha!

     

    E ele chegou lá, a esse sítio, e foi disse: - *Valha-me aqui*(?) Santo António!

     

    Apareceu a pombinha! A pombinha foi lá dentro e trouxe um anel! Ele vai, joga o anel (…) àquela pessoa que ‘tava ali à janela. Ela ficou em (…) princesa *do mar/mai’(?) lindo que apareceu*(?). Assim que o viu, apaixonou-se por ele! Mas ela era muda! Ela era muda. Era muda e depois ele dizia assim:

    - (…) Atão, e é muda, como é que?

    Deixa lá, que já se vê já hoje!

    Ela era muda! Mas quando foram, conforme se montaram nos cavalos, ele montou-se num castanho e ela no branco.

    E ela disse assim: - Ai, delas!

     

    Chegou lá, (…) ‘tava o povo levantado pa’ chegar a rainha que era muda!

    - Ai, diz lá isso…

    E ela dizia: - Ela na’ fala! Tu és morto! Ela na’ fala! – (…).

     

    E ó depois ela disse: - Diz lá, diz lá!

     

    E ele disse: - Menina, diga lá a palavra que a menina disse quando se montou no cavalo!

    Diz ela assim: - Disse “ai, delas!” Que no cavalo vinham duas donzelas! - Ela disse: - “Ai delas e ai, Dom/dão(?)! Ai delas e ai Dom/dão(?)”!

    - Diga a outra!

    - Ai, Dom/dão(?)!

    - Sou o António!

     

    - Se a Antónia fosse António já o meu pai era cabrão(17)!

    (…) Foi assim! (…) Contava-me estas coisas assim a Ti(18)Chica!

     

    Idalina Cacito, Beja, Abril de 2010

    Glossário:

    (1) Na’ - não (pronuncia popular, uso coloquial).

    (2) Pa’ “para” (em próclise, usadode modo informal e coloquial).

    (3) Padrinho – o protector, defensor e que foi testemunha de baptismo; o que deu o nome a alguém.

    (4) Atão“então”, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que, no caso, denota espanto.

    (5) OlhaInterjeição empregue para chamar a atenção de alguém. Escuta! Presta atenção!

    (6) Santo Antóino – Santo António (pronuncia popular).

    (7) Home’ – homem (reprodução de pronúncia popular).

    (8) A gente - subentende-se o sujeito “nós”.

    (9) -Le ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).

    (10) Monteregionalismo do Alentejo - «Cada herdade, com raríssimas excepções, contém uma casa ou edifício denominado monte - talvez por ser construído sempre no alto duma colina ou ondulação do terreno, - no qual, além da parte destinada à habitação do proprietário e do seu feitor, ou guardas, existem os celeiros, as arrecadações da ucharia ou dos aparelhos agrícolas, as cavalariças, o forno, a abegoaria, etc. Em algumas herdades há, ainda, outras casas, alugadas aos jornaleiros ou criados da lavoura, designados então por caseiros, - termo de sentido bem diverso do que lhe compete ao norte do Tejo, onde significa feitor.» Gonçalves, Luís da Cunha. (1921). A vida Rural do Alentejo. Breve estudo léxico-etnográfico. II - O regime da propriedade rural. A terra e a habitação. O lar e a alimentação. Sistema usual de explorar a terra. Os salariados e os salários. Horário do trabalho rural (pp.128-136). Academia das Sciencias de Lisboa. (1926). Boletim da Classe de Letras (Antigo Boletim da Segunda Classe). Actas e Pareceres Estudos, Documentos e Notícias. Volume XV. 1920-1921. Coimbra: Imprensa da Universidade (p.128-129).

    (11) ‘Tava –“estava” ( pronúncia popular do verbo “estar” conjugado).

    (12) Brada – chama por; pede em voz alta.

    (13) Me’ – “meu” (supressão da vogal u para reprodução da pronúncia, uso informal e coloquial).

    (14) Na’ sei quê – no caso, estado indefinido ou incerto.

    (15) Mai’ – neste caso “mas”.

    (16) ‘Tire lá! – atire lá; diga lá!

    (17) Cabrão – homem traído pela esposa (vulgarismo).

    (18) Ti - tia - forma de tratamento que, em Portugal e sobretudo na província, no campo, é usada para mulheres de certa idade e de condição modesta.

     

    Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:

    Barreiros, Fernando Braga. (1917). Vocabulário barrosão. Revista Lusitana, Volume XX, Lisboa: Livraria Clássica Editora, Lisboa. p. 141.

    Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.

    Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.

    Nunes, José Joaquim. (1902). Dialectos Algarvios (Lingoagem do várlavento) (Conclusão). Revista Lusitana: Arquivo de Estudos Filológicos e Etnológicos Relativos a Portugal, (1ª Série), Volume VII, Lisboa: Antiga Casa Bertrand.  pp. 250.

    Vasconcelos, José Leite de/Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. Dicionário de Regionalismos e Arcaísmos (DRA). Em linha, URL/PDF, p.720.

    http://aulete.uol.com.br; http://aulete.uol.com.br; http://ciberduvidas.sapo.pt; http://michaelis.uol.com.br; http://www.ciberduvidas.com; http://www.infopedia.pt; http://www.mirandadodouro.com/dicionario; http://www.priberam.pt

     

     

     

     

     

     

     

     

Caracterização
  • Conto Maravilhoso: Ciclo “Ajudantes Sobrenaturais”: Tipo **514, A Afilhada de Santo António (A Young Woman Disguised as a Man is Wooed by the Queen).

     

    Classificação: Isabel Cardigos (CEAO/Universidade do Algarve) em Setembro de 2011.

    Fonte da Classificação: Isabel Cardigos, Paulo Correia, J. J. Dias Marques, Catalogue of Portuguese Folktales, “F.F. Communications nº 291 “ Academia Scientiarum Fennica, Helsínquia, 2006. Elaborado a partir dos catálogos internacionais, nomeadamente o “Aarne-Thompson” (The Types of the Folktales, “F.F.C. nº 184, Helsínquia1961) e a recente reformulação de Hans-Jörg Uther, The Types of International Folktales: A Classification and Bibliography, “F.F.C. 284-286”, Helsínquia 2004.Foi utilizada a reformulação portuguesa ampliada, ainda inédita.

     

Identificação
  • St. António padrinho
  • Idalina Cocito
  • 1938
Contexto de produção
Contexto territorial
  • St. Clara de Louredo através da Biblioteca Municipal de Beja (contacto Cristina Taquelim).
Contexto temporal
  • Actualmente sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja.
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias que participam em iniciativas do Município de Beja. São convidados na iniciativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Lénia Santos
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa

PCI Livro

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