Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Soldados e estudantes

nome:

António Caeiro

ano nascimento:

30/12/1933

freguesia: Vila Ruiva
concelho:
Cuba
distrito:
Beja
data de recolha: Fevereiro 2006
 

Dados de inventário
  • Soldados e estudantes
  • Cuba

    “Soldados e estudantes” - O rei e a rainha fazem uma aposta: o rei diz que os seus soldados são mais inteligentes que os estudantes que a rainha visitou numa universidade… Qual deles vencerá a aposta?

    António Caeiro; Vila Ruiva; Concelho de Cuba.

    Registo 2006.

Transcrição
  • Soldados e estudantes

     

    «O meu pai queria demonstrar que a vida prática é melhor do que a teoria, n’é? E depois juntando as duas coisas é o ideal, n’é? Mas então ele contava o seguinte:

     

    O rei foi fazer uma visita às tropas (isto mais ou menos em Lisboa) e a rainha foi fazer uma visita à universidade. E ao regressarem ao palácio, depois do jantar, puseram-se a conversar sobre o que é que tinham visto, o que é que não tinham visto, e a rainha vinha maravilhada! Disse a rainha:

     

    Ah! Venho encantada com os estudantes! Tu não queres saber os conhecimentos… O que eles sabem!

     

    E disse o rei:

     

    Oh! Isso comparado com os meus soldados na’ é nada! Os meus soldados resolvem todos os problemas! São muito mais espertos que os teus estudantes.

     

    Rainha – Na’ digas! Atão eles… Parte deles nem ler sabem!

     

    Rei – Queres tirar a prova? Vamos fazer uma aposta!

     

    Rainha – Vamos.

     

    Rei – Tu mandas vir o estudante mais inteligente que houver além na universidade e eu mando vir um soldado qualquer de cavalaria(1) sete. E tu vais ver!

     

    E assim foi. A rainha mandou o seu oficial às ordens ir lá à universidade dizer para o reitor mandar-lhe o estudante mais inteligente que ele lá tivesse. E assim foi, mandou-lhe um que já ‘tava até a pensar em ser ministro – ministro nem que fosse da Defesa, n’é? De maneira que mandou-lhe um muito inteligente.

     

    E o rei disse assim lá ao oficial, deu as determinadas ordens:

     

    Tu vais daqui à cavalaria 7 e dizes ao comandante que mande um soldado qualquer. Mande cá um soldado!

     

    Assim foi. Bom, veio o estudante que o reitor pensou que era o mais inteligente e veio o soldado, que por sinal era condutor hipo(2) (…) e era aqui do Alentejo(3).

     

    E então a rainha disse assim pò estudante:

     

    Olha, toma lá estes vinte mil réis(4)nesse tempo eram réis, n’é? –, e vais-me comprar  dez mil réis de “nada” e dez m’é’réis(5) de “não nada”!

     

    O estudante ficou muito encavacado(6) – não podia dizer que não à rainha. Lá recebeu vinte mil réis, abalou(7) pela cidade fora e perguntava em todo o lado:

     

    Estudante 1 – Vocês têm aqui “nada”?! “Nada”, têm?

     

    Comerciante – ‘Tás maluco ou quê?!

     

    Estudante 1 – Atão é uma encomenda que a rainha fez: quer que eu lhe compre dez m’é’ réis de “nada” e dez m’é’ réis de “não nada”…

     

    Corria tudo, não conseguia encontrar. Voltou para trás muito esmorecido(8), disse:

     

    Sua alteza, sua real majestade, desculpe, mas eu não consegui a encomenda que… Na’ consegui, não!

     

    Rainha – Bom, ficas aí nessa sala.

     

    Depois levou a mesma quantia ao soldado e disse:

     

    Toma lá estes vinte mil réis e vai-me tu comprar: dez m´’é’ réis “de nada” e dez m’é’ réis de “não nada”!

     

    Ele olhou assim admirado pa’ rainha e disse assim:

     

    Ai, queres gozo, heim?! Já te dou!

     

    De maneira que arrancou de lá, veio-se embora. A primeira taberna que viu, logo ali na Calçada da Ajuda, entrou. Mandou vir um copo, um macinho de tabaco, uma sandes… Estourou(9) logo os vinte mil réis. Comeu, bebeu, fumou uma cigarrada… Começou assim a pensar:

     

    Atão e agora? Como é que é qu’eu me vou desenrascar?

     

    E o que é que ele viu? Viu em cima duma das talhas(10) do vinho um bocado de cortiça. E disse assim para o taberneiro:

     

    Ó amigo! Você é capaz de me dar ali um bocado de cortiça? Aquele bocado de cortiça que ‘tá ali, em cima da talha?

     

    Disse o taberneiro:

     

    Atão pra quê que você quer isso?

     

    Soldado 1 – Ah! Preciso disso. Se você me desse, eu agradecia!

     

    Taberneiro – Atão na’… Tome lá! Atão, não dou! Dou, à vontade, eu tenho aí mais. Tome lá.

     

    Deu-lhe um bocado de cortiça. Pronto, ia-se embora – meteu o bocado de cortiça no bolso e veio-se embora. Vinha andando, pensando… Quando ele vinha já a chegar ao pé do palácio, vinha tão pensativo que nem olhava para o chão – catrapuz – tropeçou numa pedra:

     

    Soldado 1 – Oh! És mesmo tu que vais! – Apanhou e meteu-a no bolso. Foi-se embora.

     

    Chegou ao palácio. A rainha veio logo muito convencida que ele também falhado e disse:

     

    Atão? Conseguiste?

     

    Soldado 1 – Consegui. Mas preciso que me traga uma bacia grande, cheia de água.

     

    Lá se chegou para a cozinha, para as aias, lá veio a aia com uma bacia grande cheia de água. Pegou na cortiça, pôs em cima da água, e disse olhando para a rainha:

     

    Soldado1 – Olhe… Nada! Nada!

     

    Pegou na pedra e a pedra foi ao fundo:

     

    Soldado 1 – Não nada! Não nada! ‘Tá aviada(11)!

     

    A rainha ficou muito furiosa! Disse:

     

    Ah! Este estudante era parvo, homem! Esse é que é o mais esperto? Vem um borra-botas(12) destes, consegue resolver, aquele não consegue!?

     

    Rei – Atão mande vir outro!

     

    Mandaram vir outro estudante que fosse mais inteligente que aquele. E atão veio outro estudante e outro soldado, que por acaso era de Trás-os-Montes(13).

     

    Disse a rainha:

     

    Toma lá estes vinte m’é’réis: vais-me comprar dez m’é’réis de “ais” e dez m’é’réis de “uis”!

     

    O estudante ficou muito encavacado, sem saber o que pensar:

     

    Estudante 2 – Onde é que eu vou comprar “ais” e “uis”?

     

    Bom, lá andou pa’ cidade fora, perguntando em drogarias, em todo o lado – não encontrava os ais nem os uis em lado nenhum! Pronto, teve de voltar lá pa’ trás pò palácio. Foi aborrecido, lá disse:

     

    Sua real majestade saberá, sua alteza, que não consegui encontrar… Dizem que sua alteza ‘tá a brincar comigo.

     

    Rainha – Não ‘tou a brincar…

     

    Chamou:

     

    Rainha – Anda cá tu, soldado!

     

    Lá veio o soldado 31. Ela lá lhe deu os vinte m’é’réis e disse:

     

    Vais-me arranjar dez m’é’réis de “ais” e dez mil réis de “uis”!

     

    Assim foi. O transmontano(14) disse:

     

    “Shim shenhora”.

     

    Foi por aí fora. O transmontano como na’ fumava, o que é que fez? Bebeu um copo na taberna, comeu uma sandes e comprou um postal pa’ mandar à namorada. E foi-se embora pa’ vida dele. Entretanto, foi dar uma voltinha ao jardim a ver se via as sopeiras(15). Assim foi. ‘Tava a ver passar as sopeiras no jardim e a pensar:

     

    Como é que eu agora vou-me desenrascar com esta brincadeira?!

     

    E atão olhou e viu assim um canteiro de rosas.

     

    Soldado 2 – Oh!

     

    Tinha uma navalhinha, foi lá, colheu um bocado de rosas e meteu-as no bolso. Colheu outro bocado de rosas, meteu no outro bolso. E lá veio embora, a caminho do palácio.

     

    Chega lá, disse-lhe a rainha:

     

    Atão? Conseguiste?!

     

    Soldado 2 – Consegui! Mas vossa real majestade, sua alteza, é que tem que tirar aqui do bolso.

     

    A rainha foi afeita(16) ver o que era. Meteu a mão, picou-se:

     

    Rainha – Ai!

     

    Foi do outro lado, meteu a mão no bolso do soldado:

     

    Rainha – Ui!

     

    Dizia o outro:

     

    Soldado 2 – ‘Tá aviada!

     

    E assim acabou!

     

    Assim provou o rei à rainha que os soldados, apesar de não saberem ler, eram mais práticos, mais espertos, que os estudantes que sabiam ler. Esta história contava o meu pai também.

     

    António Caeiro, 73 anos, Vila Ruiva (conc. Cuba), Fevereiro 2006.

     

    Glossário:

     

    (1) Cavalaria: Corpo militar que se movia a cavalo e que hoje usa veículos blindados e motorizados.

    (2) Condutor hipo: condutor de carros puxados por cavalos e muares.

    «Vocês na’ sabem o que é condutor hipo. Antigamente, na tropa, não havia os carros de combate. Os carros eram puxados por cavalos e por muares e os homens que guiavam esses animais eram chamados condutores hipo. E quem ia para condutor hipo eram sempre aquelas pessoas mais rudes de aprender a instrução. Eram sempre…condutores hipo e cozinheiros. Eu fui pa’ cozinheiro! Mas é que fui me’mo pa’ cozinheiro!  Os mais rudes iam sempre ou pa’ condutores hipos ou pa’ cozinheiros.» (António Caeiro, Vila Ruiva, Fevereiro 2006).

    (3) Alentejo: região do sul de Portugal.

    (4) Réis: plural de real, moeda usada em Portugal no tempo da monarquia.

    (5) M’é’réis: Expressão oral de abreviatura de “mil réis”.

    (6) Encavacado: embaraçado, atrapalhado.

    (7) Abalou pela cidade: neste caso, percorreu a cidade.

    (8) Esmorecido: desanimado.

    (9) Estourou: gastou.

    (10) Talhas: Vasilha (geralmente de barro) de boca estreita e de grande bojo, em que se guarda azeite, vinho, etc.

    (11) Aviada: servida, atendida.

    (12) Borra-botas: indivíduo sem qualquer sem importância.

    (13) Trás-os-Montes: região do norte de Portugal.

    (14) Transmontano: Natural de Trás-os-Montes.

    (15) Sopeira: empregada doméstica, geralmente para serviço de cozinha.

    «Sabe o que é uma sopeira? Na’ sabe. Atão eu explico o que é uma sopeira. No tempo, os namoros dos soldados eram com as criadas de servir. As criadas de servir chamavam-se sopeiras – usavam um avental branco e iam atrás das senhoras (uma senhora muito importante à frente e a desgraçada com a sesta atrás, com o avental branco) – eram chamadas as sopeiras» (António Caeiro, Vila Ruiva, Fevereiro 2006).

    (16) Afeita: afoita, apressada, ansiosa.

     

    Para a execução deste glossário consultaram-se os websites: http://www.priberam.pt, http://www.ciberduvidas.com, http://acll.home.sapo.pt/portugues.html e http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/cavalaria

     

     

     

     

Caracterização
    • Conto realista (novelesco).
    • Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson:ATU 860 Nozes de "Ai, Ai, Ai!

     

    • Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Junho de 2007.
     
Identificação
  • Soldados e estudantes
  • António Caeiro
  • 1933
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Vila Ruiva, casa de António Caeiro
Contexto temporal
  • Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Beja/Cuba, escolas
Manifestações associadas
  • Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Cuba e de Beja. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas.

Equipa responsável
  • Marta do Ó
  • José Barbieri
  • Maria de Lurdes Sousa